EXCLUSIVO: Agricultura orgânica pode superar a produtividade dos cultivos convencionais

Mônica Pinto / AmbienteBrasil (*)

Os defensores dos transgênicos costumam alegar que só a tecnologia de ponta, aplicada à agricultura, poderá alimentar um planeta de população crescente. É também com esse argumento que muitos leigos desdenham os cultivos orgânicos.

“Espera-se que a população mundial cresça para 10 bilhões em 2030, aumentando em 66% a demanda de alimentos. Este cenário aponta para um brutal aumento do problema da fome no mundo nas próximas décadas e é o maior argumento das empresas multinacionais que produzem sementes de plantas transgênicas para defender esta nova tecnologia”, diz o economista Jean Marc von der Weid, assessor da FAO (órgão da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e membro da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa – AS-PTA -, em artigo publicado no Jornal do Brasil.

Mas, citando a experiência dos Estados Unidos, onde os transgênicos já são produzidos em larga escala desde 1996, ele diz que tal entendimento é “uma falácia”. “Mesmo sem levar em conta os riscos ambientais e para a saúde humana apontados por muitos como graves, os transgênicos não se mostraram nem mais produtivos nem mais econômicos”, coloca Jean Marc.

Reportagem da Revista do Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – relata que, em pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o uso de agrotóxicos e fertilizantes é apontado como a segunda causa de contaminação da água no país. “Algumas doenças, como alergias e câncer, são atribuídas aos resíduos de agrotóxicos nos alimentos”, continua a publicação.

A propalada idéia da maior produtividade dos cultivos que usam adubos químicos e agrotóxicos e dos que se baseiam em organismos geneticamente modificados perdeu mais um round recentemente, quando a Embrapa Semi-Árido divulgou uma pesquisa, em parceria com a Universidade do Estado da Bahia – Uneb -, revelando exatamente o contrário: que a produtividade no plantio orgânico pode superar a do sistema convencional.

Em testes realizados por dois anos seguidos no Submédio São Francisco, os especialistas conseguiram com o manejo orgânico obter cerca de 38 t/ha de bulbos comerciais de cebola – uma quantidade superior à média registrada com os métodos tradicionais de cultivo na região (20 t/ha).

Segundo as informações divulgadas pela Embrapa Semi-Árido, este resultado demonstra a viabilidade técnica da alternativa e abre aos agricultores da região as portas para um mercado em franca expansão no Brasil: o de produtos orgânicos. “As oportunidades comerciais neste mercado podem contribuir também para reduzir a freqüente instabilidade dos preços praticados no negócio desta cultura”, explica o pesquisador do órgão Nivaldo Duarte Costa.

Em 2005, um dos poucos agricultores que chegou a cultivar cebola orgânica no Submédio São Francisco conseguiu vender seu produto para o mercado de São Paulo a R$ 36 a saca de 20 kg. Na mesma época, a mesma quantidade da cebola convencional era vendida no Produtor de Juazeiro por R$ 8.

“Com a qualidade de ser um produto natural, sadio, de alto valor biológico e isento de agrotóxicos, a cebola orgânica possui maior valor agregado”, explica o professor Jairton Fraga Araújo, da Universidade do Estado da Bahia. Por isto que, em geral, os preços que alcança nos mercados são sempre mais elevados que os da cebola convencional, e ainda tem a vantagem de ter um custo de cultivo praticamente igual ou inferior. “É mais rentável para o agricultor”, afirma ele.

Nova mentalidade – “Vários estudos, em várias partes do mundo, já mostraram que o sistema de agroecologia pode ser tão competitivo em termos de produtividade quanto o sistema convencional”, disse a AmbienteBrasil o geneticista Rubens Nodari, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e responsável pela Gerência de Recursos Genéticos de Secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente.

Uma das razões para isso está no dispêndio energético, mais vantajoso nos cultivos orgânicos. “Na agroecologia, o sistema energético é fechado. Todo o adubo tem que ser produzido na propriedade”, exemplifica ele. “Nos cultivos convencionais, o balanço energético, em geral, é negativo: a quantidade de energia que geram três toneladas de soja colhidas em um hectare, por exemplo, é inferior à quantidade de energia necessária para produzir os insumos e operacionalizar esse hectare de soja”.

Outro fator favorável aos orgânicos apontado por Nodari diz respeito ao policultivo, sempre adotado neste sistema. “Mesmo que eu tenha uma planta de soja atacada por uma praga, ela não vai conseguir atacar o feijão, plantado ao lado”, diz ele.

O especialista adverte, porém, que a popularização no consumo de orgânicos passa por uma mudança de atitude por parte dos consumidores. “Nós temos que refazer as redes comerciais. A cadeia produtiva dos agroecológicos tem que ser construída numa perspectiva de associativismo”, coloca.

Um resultado imediato dessa transformação vai bater de frente com a busca pela simplificação abraçada pela sociedade contemporânea nos meios urbanos: não vai dar para comprar tudo em um só lugar.

* Com informações da Assessoria de Imprensa da Embrapa Semi-Árido.