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24 / 07 / 2007EXCLUSIVO: Empresas criam tecnologias para reciclar produtos pouco comuns
Neide Campos / AmbienteBrasil
A separação do lixo para reciclagem, incentivada por organizações não-governamentais e prefeituras e divulgada na imprensa e boca-a-boca faz parte do cotidiano de muitas famílias e empresas. Há tempos, a escassez de recursos naturais e a preocupação com o futuro geram interesses na reutilização dos materiais. Reciclar é economizar energia, poupar recursos naturais e trazer de volta ao ciclo produtivo o que é jogado fora.
Algumas prefeituras fazem a coleta dos materiais recicláveis em dias alternados à coleta de lixo doméstico comum, e cooperativas geram empregos na coleta e separação do lixo. Algumas empresas, como as alimentícias e shopping centers, fazem a coleta seletiva e incentivam o consumidor a fazer o mesmo. Os lixos específicos para plástico, papel e vidro fazem parte do cotidiano do brasileiro consciente.
Dados da ABAL – Associação Brasileira do Alumínio mostram que 95,7% da produção nacional de latas foi reciclada em 2004, índice superior ao do Japão (86%) e dos Estados Unidos (51%). Nesse ano, também, 173 mil toneladas de garrafas pet foram recicladas, o que representa 48% da produção nacional.
Mas a tecnologia atual, desenvolvida no país, vai além. Os materiais possíveis de se reciclar deixaram de ser apenas o plástico, a lata, o papel e o vidro. Empresas criam tecnologias para minimizar e solucionar as dificuldades na reciclagem de materiais menos comuns, como pneus e lâmpadas fluorescentes.
O Instituto Via Viva, OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, desenvolve tecnologias para substituir materiais não renováveis na natureza como pneus inservíveis – aqueles que não podem ser reutilizados – e outras borrachas vulcanizadas.
O Concreto Ecológico DI® é um concreto que absorve energia de impacto, tendo aplicabilidade diferenciada em barreiras rodoviárias por minimizar danos físicos e materiais em acidentes, além de pisos, pavimentos, pré-fabricados. O material, deformável e isolante, leva parte da pedra britada substituída por agregados de borrachas trituradas.
A Brita DI®, criada pela Via Viva, proveniente dos pneus inservíveis triturados, utilizada como agregado do concreto, também pode ser usada em sistemas de drenagem. A raspa dos pneus, colorida com pigmentos especiais, é utilizada pelo Instituto para a produção do Granulado Colorido®, material apropriado para projetos paisagísticos, como jardins e playground.
Empresas privadas, o Governo do Estado e a prefeitura de São Paulo já utilizam o produto.
Lâmpadas – A Tramppo Comércio e Reciclagem de Produtos Industriais, empresa incubada no Cietec – Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, com o objetivo de fazer a melhor opção de logística de reciclagem de lâmpadas fluorescentes que contém mercúrio, concluiu que a forma mais adequada seria descentralizar o trabalho. Para isso desenvolveu um equipamento de menor porte que recicla as lâmpadas separando vidro, vapor de mercúrio, alumínio e pó fosfórico. O equipamento limpa o vidro, retirando o mercúrio, antes de triturá-lo.
Atualmente, se recicla 98% dos materiais separados da lâmpada, mas a intenção é que todos os materiais retornem para a indústria. “Na segunda fase do projeto, com várias unidades espalhadas no sul e sudeste, a idéia é que o vidro reciclado seja vendido para a empresa que fabrica o tubo da lâmpada”, disse Elaine Menegon, diretora da Tramppo, em entrevista ao portal AmbienteBrasil. Na primeira fase, a empresa atua apenas na Grande São Paulo.
Por enquanto, os materiais reciclados são destinados à indústria em geral. O vidro da lâmpada, que é muito resistente, pode ser usado na constituição da cerâmica. O mercúrio pode ser vendido para empresas que fazem termômetros e barômetros, e o pó fosfórico, após a descontaminação do mercúrio, pode ser vendido para o próprio fabricante, já que a matéria-prima é muito cara.
Gerenciamento virtual – Com um mercado de geração de grande quantidade de materiais recicláveis, carente de informações quanto à identificação das empresas geradoras e recicladoras, bem como da solução logística integrada, a Sistema Ciclo, também incubada no Cietec, desenvolveu um ferramenta com procedimentos de comércio eletrônico e suporte logístico. A empresa busca viabilizar economicamente a coleta de resíduos através de roteirização virtual, diminuindo o custo de transporte e garantindo a comercialização de lotes consolidados a valores competitivos de mercado.
Segundo estatísticas do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitica, referentes à disposição dos resíduos sólidos, cerca de 75% das cidades brasileiras depositam seus resíduos em lixões, muitos deles clandestinos.
Baseado em consolidação de resíduos, o site www.sistemaciclo.com.br será um meio para vendedores e compradores de material reciclado otimizarem os negócios. “A partir do registro de volumes, o sistema consolida a carga e dispara a ordem de coleta buscando a otimização do frete” explica Isac Wajc, sócio-proprietário da Sistema Ciclo.
O usuário cadastrado poderá encontrar todas as informações para a área de reciclagem, como preços de materiais, localização de clientes, cálculo de fretes, determinação de rotas, mapeamento por materiais, locais de triagem e alertas sobre materiais de interesse.
O público-alvo da empresa é formado por empresas geradoras de materiais recicláveis, comércio, indústrias de processamento de materiais recicláveis, prefeituras, centrais de abastecimento, cooperativas do setor, entre outras. A idéia é tornar o site auto-sustentável, com um grande volume de informações e de pessoas cadastradas. Segundo Isac, o sistema eletrônico gera segurança e receita para as partes envolvidas “proporcionado condições para o desenvolvimento de diversos mercados, aumentado a gama de resíduos passíveis de reciclagem e contribuindo para o ‘triple bottom line’ (desenvolvimento econômico e social de forma ambientalmente correta e segura)”.
Isac explica que o Brasil perde cerca de 5 bilhões de reais por ano em resíduos não reciclados. “O grande problema é que a quantidade de resíduos gerados ainda é muito superior à de resíduos reciclados”.
“O maior ganho será dos usuários (indústrias geradoras, comércio, abastecimento, cooperativas de catadores de lixo, empresas de coleta, empresas de beneficiamento e empresas de processamento de materiais recicláveis) que aderirem ao sistema, pois a consolidação virtual permitirá a comercialização dos resíduos a valores vantajosos”, afirma Isac.