EXCLUSIVO – Protótipos de casas de bambu em Sergipe atestam viabilidade dessa opção em políticas de habitação popular

Mônica Pinto AmbienteBrasil

O bambu vem ganhando espaço como matéria-prima para uma série de produtos, que vão de móveis e artesanato às fibras têxteis (veja notícias relacionadas no final da matéria). Mais recentemente, porém, uma iniciativa desenvolvida em Aracaju (SE) deu um passo significativo para inserir a planta no rol dos instrumentos palpáveis no caminho do desenvolvimento sustentável.

Mais que isso, torna o bambu agente da resolução de um problema sério no país. Segundo dados do IBGE, o déficit habitacional no Brasil atinge a casa dos 6 milhões de unidades, envolvendo uma população de 30 milhões, pessoas que vivem em habitações subnormais ou co-habitam em precárias condições de salubridade e higiene.

Esse desafio levou o arquiteto Ricardo Nunes a mergulhar na tarefa de desenvolver a pesquisa e aplicação de novos materiais e tecnologias baseadas nos recursos naturais e humanos de cada região. O entendimento a movê-lo foi o de que esse trabalho pode representar um incremento significativo para o equacionamento do déficit de moradia com qualidade, sustentabilidade econômica e ambiental.

O pontapé inicial da proposta aconteceu em 2004, quando ele elaborou, como objeto de pesquisa acadêmica para dissertação de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, uma construção experimental para o Centro de Educação Agroflorestal da Petrobras (na foto ao lado), na cidade sergipana de Carmópolis, a 64 Km da capital.

A edificação, com 255 m² de área, utilizou o bambu para elevação de toda a sua estrutura e confecção das paredes, construídas a partir de painéis pré-moldados de esteiras de bambu, rebocados com areia e cal. O espaço é usado para cursos e aulas de educação ambiental e capacitação de agricultores inseridos no projeto de agro-floresta, desenvolvido pela Petrobras naquele município.

”Sabíamos que os materiais e os métodos de construção utilizados no Centro poderiam representar grande impacto econômico na construção de casas e, para isso, precisaríamos testar em protótipos”, disse Ricardo Nunes a AmbienteBrasil.

No mesmo ano, 2004, ele fundou o Instituto de Desenvolvimento Comunitário Sustentável (Incomun), Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) com sede em Aracaju, que institucionalizou a proposta de pesquisar essas técnicas.

Apresentado o projeto à Prefeitura de Aracaju, dentro de um programa de RSE (Responsabilidade Social Empresarial), a parceria foi firmada em junho de 2007, também incluindo a Petrobras, com o objetivo de levar a termo dois protótipos de habitação popular.

As casas foram edificadas com 47 m² cada, e dividem-se, cada uma, em dois quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e varanda (confira fachada na foto ao lado). Localizadas no Parque da Sementeira, em Aracaju, encontram-se em processo de avaliação técnica de desempenho dos materiais e processos tecnológicos durante o ano de 2008, enquanto são utilizadas pela Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) em suas atividades administrativas.

Também como produto deste projeto, em breve estará sendo editado o “Manual de Construção de Habitação com Bambu”, acompanhado de um DVD para a capacitação de arquitetos para a elaboração de projetos, e mão-de-obra de carpinteiros e aprendizes para a execução das construções.

“Demonstramos que uma habitação social pode ser construída pela metade do preço de uma construção convencional; que a tecnologia é simples e pode ser apropriada facilmente por comunidades pobres e que a sustentabilidade, nesse caso, não é uma mera peça de marketing, mas uma prática de fato”, diz o arquiteto, registrando que as casa são “bonitas, duráveis e muito confortáveis” (veja mais fotos no final da matéria).

Fora a redução do custo construtivo pela metade – o que pode cair ainda mais, a depender da escala -, o uso do bambu em residências tem outros méritos em relação aos materiais convencionais. “Para a produção de dez mil blocos cerâmicos, é queimado um caminhão de lenha”, diz Ricardo. “Com o bambu, ao invés de emitirmos CO2 para a atmosfera, o carbono é seqüestrado pela planta e fixado na construção, reduzindo poluição e efeito estufa”.

O uso do material ainda não foi contemplado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lacuna que, no entanto, não desanima o arquiteto. “A questão da normatização pela ABNT é apenas uma formalidade institucional para que casas de bambu possam ser financiadas pelas agências oficiais”, diz ele.

E completa: “mesmo sem normatização, elas podem ser legalmente construídas por iniciativa das próprias comunidades, com apoio de governos e ONG’s. Os protótipos construídos dentro do rigor do método científico onde todos os procedimentos técnicos foram registrados para futuras repetições é suficiente para a criação de um programa de construção em série”.

Outro estudo no sentido de valorizar o bambu contra o déficit habitacional está em curso no Rio de Janeiro, por intermédio do Sebrae na cidade de Três Rios, conforme AmbienteBrasil mostrou na reportagem EXCLUSIVO: “Casa ecológica” com bambu e raspas de pneus pode ser aprovada pelo Sistema Financeiro de Habitação, de setembro passado.

A parede recebendo o reboco de areia e cal.

Parte interna do protótipo

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