EXCLUSIVO: Quatro perguntas sobre o movimento “Circo legal não tem animal”

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

Está programada para o próximo dia 10 uma audiência pública no Congresso Nacional que pode definir, em grande parte, o futuro do Projeto de Lei pelo fim do uso de animais em circos no Brasil (PL 7291/2006). Para discutir a questão, estarão de um lado organizações de proteção animal e, do outro, donos de circos com animais. Atualmente, o PL está sob análise da Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, que o votará em breve.

O relator do projeto, deputado Antônio Carlos Biffi (PT-MS), já apresentou parecer favorável à proibição. “Entretanto, a pressão dos proprietários de circos pela manutenção da prática é grande e tem influenciado muitos políticos”, diz o braço brasileiro da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla em Inglês).

A entidade está mobilizando pessoas simpáticas à proibição por intermédio da campanha “Circo legal não tem animal”, para que assinem um abaixo-assinado pela aprovação do PL 7291/2006. O objetivo é conseguir, até o próximo dia 10, o maior número de adesões possível, “mostrando aos deputados que uma grande parcela da sociedade brasileira é contra crueldade com animais” (clique aqui, se quiser assiná-lo).

A WSPA também coordena outro abaixo-assinado direcionado à classe médica veterinária, para levar ao Congresso a opinião e o apoio dos especialistas em saúde e bem-estar animal.

AmbienteBrasil conversou com a veterinária Ingrid Eder, gerente de Campanhas da WSPA Brasil. Confira.

AmbienteBrasil – O ideal não seria, ao invés da proibição, exigir que os animais de circos fossem bem tratados?

Ingrid Eder – Isso não é possível. Para obrigar os animais selvagens a se comportarem de uma maneira como nunca se comportariam na natureza, é necessário promover um treinamento agressivo. Somente através da violência consegue-se fazer um leão pular um arco de fogo, por exemplo. Desta forma, os treinamentos envolvem o uso de varas, chicotes, choques, objetos pontiagudos, chapas quentes, entre outros.

Além disso, o circo não fornece ambiente adequado aos animais, que vivem em espaços muito limitados e mal estruturados, e muitas vezes não têm alimento de qualidade ou em quantidade suficiente. Isso sem contar o constante transporte em circos itinerantes, que causa alto grau de estresse aos animais, sofrimento esse que não tem como ser minimizado.

Não podemos ignorar que, além do sofrimento animal, ainda há riscos para os seres humanos. Doenças podem ser transmitidas, visto que não existe vacinação eficiente para os animais selvagens. E ainda há perigo de acidentes: vide o caso dos leões de circo que devoraram uma criança de seis anos, em Pernambuco, em 2000. E tudo isso para quê? Para podermos assistir a um urso andando de bicicleta?

AmbienteBrasil – Muitos irão avaliar a proibição como uma afronta à tradição circense. O que a WSPA diz sobre isso?

Ingrid – O circo não precisa de animais para continuar existindo, muito pelo contrário: a proibição ao uso de animais é uma valorização do artista humano, que sozinho consegue maravilhar sua platéia. Prova disso é o Circo do Beto Carrero, que também se apresenta em cidades e estados onde é proibido o uso de animais nos espetáculos e, ainda assim, permanece por longos períodos em cartaz. Essa é a evolução natural do circo, prestigiando o homem.

Ressaltamos que somos a favor da tradição circense no Brasil, e propomos que esta importante manifestação cultural evolua também em nosso país. O circo é uma forma muito importante e insubstituível de entretenimento e sua tradição deve continuar, porém sem animais.

AmbienteBrasil – Como a população tem recebido a idéia dos circos sem animais? Afinal, se os empresários os mantêm, é porque o público gosta desse tipo de atração.

Ingrid – O público que se sente atraído por apresentações com animais desconhece a forma como estes são criados e treinados, e, a partir do momento que obtém a informação, entende que é cruel e se desinteressa. Especialmente as crianças, que compreendem que devemos respeitar e proteger os animais. A cada dia que passa se fala mais sobre a educação e a responsabilidade ambiental, respeito ao meio ambiente e a todas as formas de vida, então precisamos evoluir. Basta observar que os circos mais famosos do mundo não utilizam animais e fecham todas as noites com suas bilheterias esgotadas. Esse é o futuro do circo.

Não é a toa que muitos países já proibiram o uso de animais nos espetáculos circenses (Áustria, Costa Rica, Dinamarca, Finlândia, Índia, Israel, Cingapura e Suécia), assim como cinco Estados brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Sul) e quase 50 cidades no próprio Brasil. E vale lembrar que em outros dois Estados a questão está em tramitação.

AmbienteBrasil – A WSPA alega que os animais em circos estimulam o tráfico de espécies selvagens. Isso não é regulamentado e fiscalizado na prática?

Ingrid – De uma forma geral, circos com animais estimulam o tráfico internacional, seja de animais exóticos entrando no país, seja de espécies da nossa fauna traficadas ao exterior. No Brasil, a aquisição de animais é regulamentada, mas como observado em outras situações, é muito difícil de ser fiscalizada. A maioria dos animais selvagens utilizados em circos provém de outros países, e alguns entram irregularmente. E, como ocorre no tráfico interno de animais silvestres, a obtenção de animais irregulares é muito mais barata do que a de animais registrados.

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