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28 / 11 / 2005 EXCLUSIVO: Família que trabalha unida... preserva unida

Danielle Jordan / AmbienteBrasil


Não bastasse a beleza do trabalho desenvolvido com a minuciosa reprodução de peças em miniatura, a arte de Danilo Ferreira Leite agrega ainda a consciência ambiental. Tampas de todos os tamanhos, cargas de caneta, palitos, arames, enfim, objetos imediatamente descartáveis para a maioria, sob o olhar do artista são mesas, cadeiras, livros etc. “Eu imagino, vejo os materiais que tenho e decido o que vou fazer, pré-visualizo antes de começar”, explica.


O que seria lixo para muitos, para Danilo é fonte de renda. Para conseguir os materiais, ele conta com ajuda de amigos que sempre lembram de separar o que pode lhe ser útil. No seu ateliê, em casa, ele armazena os resíduos que depois se tornarão peças de arte.


A veia artística está no sangue, a mãe e o pai trabalhavam com desenho. O tio e professor João Luiz Ayres da Costa foi quem ensinou-o e estimulou-o a trabalhar com as miniaturas. Em 2000, ele mudou-se para a casa do tio no Rio de Janeiro, onde conciliava o trabalho numa locadora e a confecção de suas obras. “Foi muito mais do que uma relação de tio e sobrinho, éramos professor e aluno”, diz.


Desde então, esse paulista de 27 anos encanta pessoas de vários lugares do mundo com sua criatividade. Ontem, dia 28, duas de suas peças atravessaram o oceano: uma cliente que interessou-se pelo “estúdio fotográfico” e “ateliê de pintura” levou-as para a França. Danilo conta que, quando trabalhava com o tio-professor, na Feira de Artesanato de Ipanema, o interesse dos estrangeiros era muito grande. Tanto que Danilo aprimorou seu inglês somente nas conversas e vendas.


Durante nove anos, Danilo trabalhou numa locadora. O contato estreito com a sétima arte transportou a magia do cinema para suas peças, fazendo reproduções do quarto do Zorro e do Vampiro. O tio também tem trabalhos voltados ao tema, como o castelo do Franknstein e os camarins de Marilyn Monroe e Sophia Loren.


Agora, de volta a São Paulo, Danilo dá continuidade ao trabalho artístico. Numa cidade tão grande, suas miniaturas ainda “lutam” por um espaço. Quando consegue, o artista expõe seus trabalhos em algumas feiras, mas não tem um ponto fixo, como antes, no Rio de Janeiro, na companhia do tio.


João Ayres está no ramo há vinte anos e nem por isso conquistou seu lugar definitivo. Ele começou a participar na Feira de Ipanema como convidado até conseguir um espaço dividido com um amigo. Assim como o sobrinho, o mestre fez mais discípulos. A filha de 17 anos orgulha o pai: “ela faz pesquisas e suas peças também. Já está ganhando seu dinheirinho”. Mas, a intenção é ir além, João pretende ainda ensinar sua arte para mais pessoas, com um projeto social. Das vagas disponíveis, reservaria uma parte às pessoas carentes, projeta.


João Ayres conta que desde pequeno tinha o costume de criar seus próprios brinquedos.
“Quando ganhava uma carrinho bonito, logo pensava: nossa, dá para fazer um trator.”

A brincadeira virou ofício e o músico, que já fez turnês com Oswaldo Montenegro, hoje vive da sucata. “Dá para pagar todas as contas e ainda sobra para comer um sushi de vez em quando”, brinca. O artista já realizou trabalhos para famosos, como a reprodução dos camarins de Xuxa e de Marieta Severo.


“Meu sobrinho entendeu o que era a brincadeira”, diz o professor, para quem ele seguiu os passos e o exemplo do tio. Mas, antes mesmo de começar a desenvolver o trabalho artístico com miniaturas utilizando material reciclado, Danilo já demonstrava respeito e interesse pelo meio ambiente. Preocupava-se em separar o lixo e, quando visitava o pai, em Itutinga, no interior de Minas Gerais, praticava treking. A rede mundial de computadores não nega. No orkut, site de relacionamentos, o artista tem seu nome relacionado a comunidades com a temática ambiental.


O trabalho exige paciência. Além das dificuldades rotineiras na vida dos artistas brasileiros, as peças exigem um certo tempo para serem concluídas. Segundo Danilo, as menores levam uma semana, em média, para ficarem prontas; as maiores podem levar meses.

O reconhecimento já seria uma ótima recompensa. Não só pelo valor artístico, mas por toda a contribuição ambiental embutida, a sensibilidade que consegue transformar em bonito aquilo que já tem até o nome associado ao feio: lixo. “Olhar e reconhecer o material usado na peça”, diz Danilo, falando que às vezes transforma materiais, como o tubo de caneta que esquenta e deforma. “Quando conto para as pessoas como fiz elas acham incrível”.


Detalhes das fotos na ordem em que aparecem na matéria:


Para a cozinha, com fogão à lenha, foram usadas tampas diversas como panelas. O banquinho é uma rolha fatiada e os pés do banco são espetinhos de churrasco. Todos os potinhos e vidrinhos são mangueiras de várias cores. Os rótulos são impressos da Internet.


Estúdio fotográfico. As fotos da parede foram retiradas de revistas velhas; as mesas e armários, feitos com restos de papel-pluma.


Na Selaria foram usados vários tipos diferentes de couro. Cintos e saias velhas que iriam para o lixo.


O quarto do surfista é uma das peças médias, mais simples, com menos detalhes.


A Locadora de videos, abaixo, é a favorita de Danilo, pois trabalhou no ramo durante nove anos. Cada filme é recortado, colado num pedaço de EVA; depois, cortado no tamanho da "fita" e colado um a um nas prateleiras, feitas de papel-pluma.





*Fotos cedidas por Danilo Ferreira Leite


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