{"id":157266,"date":"2020-02-27T16:00:00","date_gmt":"2020-02-27T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/?p=157266"},"modified":"2020-02-26T21:06:36","modified_gmt":"2020-02-27T00:06:36","slug":"como-esta-cientista-trabalha-para-reabilitar-o-maior-e-mais-raro-macaco-das-americas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/localhost\/clipping\/2020\/02\/27\/157266-como-esta-cientista-trabalha-para-reabilitar-o-maior-e-mais-raro-macaco-das-americas.html","title":{"rendered":"Como esta cientista trabalha para reabilitar o maior e mais raro macaco das Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"\n
\"muriqui-do-norte
Uma m\u00e3e muriqui-do-norte se desloca graciosamente pelo dossel da Mata Atl\u00e2ntica. Sua cauda pre\u00eansil age como um quinto membro e a auxilia na passagem entre as copas das \u00e1rvores.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Eles est\u00e3o sempre se abra\u00e7ando, n\u00e3o brigam por alimento e raramente exibem comportamentos agressivos \u2013 os maiores macacos das Am\u00e9ricas s\u00e3o s\u00f3 paz e amor. Mas o muriqui-do-norte \u00e9 um dos primatas mais raros do mundo. Criticamente amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o, os \u00faltimos indiv\u00edduos da esp\u00e9cie ocorrem em pequenos trechos de Mata Atl\u00e2ntica conservada no Sudeste do Brasil. Com cerca de 1,3 metro de comprimento e pesando 9 kg, eles andam em bandos de at\u00e9 100, vivem por cerca de 28 anos e s\u00e3o polig\u00e2micos \u2013 as f\u00eameas escolhem seus parceiros e os machos fazem fila, ningu\u00e9m se enfrenta.<\/p>\n\n\n\n

Quase tudo isso que sabemos sobre esses macacos vem das m\u00e3os, olhos e orienta\u00e7\u00e3o da norte-americana Karen Strier, antrop\u00f3loga, professora, presidente da Sociedade Internacional de Primatologia e um dos nomes mais reconhecidos da primatologia mundial. Strier ainda mora e trabalha nos Estados Unidos, mas h\u00e1 mais de 35 anos fundou e ainda coordena o projeto Muriquis de Caratinga, no Vale do Rio Doce, interior de Minas Gerais. Para conhecer esta quarta personagem do especial\u00a0Mulheres da Conserva\u00e7\u00e3o, aproveitamos uma das viagens anuais que Karen faz ao Brasil para orientar os bolsistas do projeto.<\/p>\n\n\n\n

Mas assim como aconteceu na reportagem de\u00a0Neiva Guedes e as araras-azuis\u00a0\u2013 quando queimadas devastaram um enorme trecho das fazendas onde as pesquisas eram conduzidas alguns dias depois de partirmos \u2013 e\u00a0Beatrice Padovani\u00a0\u2013 os corais que ela estudo estavam sob risco de serem atingidos pelo \u00f3leo que sujou boa parte do litoral do Nordeste \u2013, nossa chegada em Minas Gerais para acompanhar o trabalho de Karen Strier precedeu outra trag\u00e9dia. Alguns dias depois de terminarmos as sa\u00eddas de campo, o estado come\u00e7ou a ser atingido por uma s\u00e9rie de tempestades que\u00a0mataram 59 pessoas e deixaram mais de 50 mil desalojadas ou desabrigadas.<\/p>\n\n\n\n

\"retrato
Karen Strier tem gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia e Biologia por Swartmore College e mestrado e doutorado pela Universidade de Harvard. Al\u00e9m de ter fundado e coordenar o projeto Muriquis de Caratinga h\u00e1 38 anos, Karen \u00e9 professora da Universidade de Wisconsin, membro da Academia de Artes e Ci\u00eancias dos EUA e presidente da Sociedade Internacional de Primatologia.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Destino: Minas Gerais<\/h3>\n\n\n\n

Depois de deixar a capital mineira Belo Horizonte, chegamos a Santo Ant\u00f4nio de Manhua\u00e7u, um pequeno povoado ao lado da Reserva Particular do Patrim\u00f4nio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, na regi\u00e3o da emblem\u00e1tica fazenda Montes Claros, uma propriedade marcada na hist\u00f3ria da conserva\u00e7\u00e3o brasileira. Trata-se de um fragmento de Mata Atl\u00e2ntica protegido desde os anos 1940 por iniciativa do fazendeiro Feliciano Miguel Abdala, que abrigava os j\u00e1 raros muriquis-do-norte.<\/p>\n\n\n\n

Por um tempo, acreditou-se que a esp\u00e9cie estava extinta at\u00e9 que o conservacionista \u00c1lvaro Coutinho Aguirre a redescobriu nas matas mineiras na d\u00e9cada de 1960. Em 1976, o pesquisador brasileiro C\u00e9lio Valle, da Universidade Federal de Minas Gerais, avistou o muriqui-do-norte na fazenda Montes Claros e logo contou ao primat\u00f3logo e conservacionista Russell Mittermeier, ent\u00e3o vice-presidente da ONG WWF. A hist\u00f3ria depois disso foi veloz. Em 1981, Russell esteve no Brasil para registrar os animais em filme. E foi assim, a partir do document\u00e1rio O Grito do Muriqui<\/em>, que a hist\u00f3ria de Karen come\u00e7ou a mudar para a floresta tropical atl\u00e2ntica. Ela teve acesso ao material e rapidamente entrou em contato com o primat\u00f3logo para que ele a ajudasse a vir ao Brasil a fim de conhecer e ver de perto o animal.<\/p>\n\n\n\n

Desde ent\u00e3o, a vida da antrop\u00f3loga e professora, que n\u00e3o sabia falar nada de portugu\u00eas, se entrela\u00e7ou com a vida desses primatas, dos pesquisadores brasileiros e das pessoas do entorno da fazenda, principalmente Seu Feliciano, que a recebeu em casa no in\u00edcio das pesquisas. A partir dessa chegada, a vida dos muriquis come\u00e7ou a ser desmitificada. Ou melhor, revelada.<\/p>\n\n\n\n

Do povoado, leva-se 15 minutos de carro para chegar na RPPN. O clima estava bastante seco e quente, mas ao entrar nessa ilha de mil hectares de Mata Atl\u00e2ntica conservada, a experi\u00eancia inclui uma mudan\u00e7a significativa de temperatura.<\/p>\n\n\n\n

\"RPPN
As florestas da RPPN Feliciano Miguel Abdala sustentam uma popula\u00e7\u00e3o com cerca de 250 muriquis-do-norte. Um dos desafios atuais \u00e9 aumentar a \u00e1rea dispon\u00edvel para os animais com a cria\u00e7\u00e3o de corredores que conectem fragmentos de Mata Atl\u00e2ntica preservada.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Este jequitib\u00e1 centen\u00e1rio impressiona quem visita a RPPN Feliciano Miguel Abdala. Ela \u00e9 uma das in\u00fameras \u00e1rvores de grande porte que se encontram protegidas no interior da reserva criada por iniciativa de Seu Feliciano e mantida por sua fam\u00edlia.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Karen havia chegado bem cedo \u00e0 sede de pesquisas e centro de visita\u00e7\u00e3o da ONG Preserve Muriqui, e nos aguardava com um r\u00e1dio comunicador em m\u00e3os, ansiosa para entrar na mata. Bem-humorada, com portugu\u00eas fluente e um sotaque delicioso, ela mal nos deu tempo para as apresenta\u00e7\u00f5es antes de nos convocar a entrar na trilha cujo in\u00edcio ficava a poucos metros da casa. \u201cPara n\u00e3o perder o momento\u201d, disse, animada.<\/p>\n\n\n\n

Duas estudantes bolsistas j\u00e1 estavam na floresta acompanhando um grupo de macacos e comunicaram pelo r\u00e1dio que em breve nos encontrariam. Boa parte das trilhas s\u00e3o as mesmas que Karen conheceu quando, em 1982, ainda com vinte e poucos anos, chegou ao Brasil acompanhando Mittermeier para avistar, pela primeira vez, o muriqui-do-norte na floresta tropical.<\/p>\n\n\n\n

A esp\u00e9cie seria tema de sua tese de doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, mas a escolha por estudar os primatas j\u00e1 tinha sido feita alguns anos antes, quando Karen completou um est\u00e1gio com babu\u00ednos no Qu\u00eania ainda durante a gradua\u00e7\u00e3o. A mudan\u00e7a do ambiente de uma savana para a densidade e umidade da Mata Atl\u00e2ntica foi significativa e impactante, assim como o primeiro encontro com o muriqui-do-norte.<\/p>\n\n\n\n

\u201cQuando entrei na floresta, lembro que respirei e senti aquela energia da vida. Ouvimos os barulhos das \u00e1rvores balan\u00e7ando, depois o relincho, e depois apareceu o muriqui\u201d, lembra Karen. \u201cE aconteceu uma coisa no meu corpo inteiro, uma coisa fisiol\u00f3gica, como se todas as coisas na minha vida ficassem alinhadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n

\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Karen Strier avalia os dados coletados em tablets com a m\u00e9dica veterin\u00e1ria Amanda Coimbra (\u00e0 esquerda) e a bi\u00f3loga Mar\u00edlia Assun\u00e7\u00e3o, ambas bolsistas do projeto Muriquis de Caratinga.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"desenho
Todos os pesquisadores que entram para o projeto Muriquis de Caratinga passam por um treinamento de dois meses no qual aprendem, entre outras habilidades, a identificar com desenhos manuais os muriquis que ir\u00e3o monitorar. O padr\u00e3o de despigmenta\u00e7\u00e3o facial, \u00fanico para cada animal, facilita o reconhecimento.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Logo depois dos primeiros minutos dentro da mata pudemos entender a dimens\u00e3o, a \u201cenergia da vida\u201d e a intensidade da proximidade com esse primata carism\u00e1tico. Nos primeiros 100 metros de trilha come\u00e7amos a ouvir um barulho forte nas \u00e1rvores, de galhos altos quebrando e alguns relinchos. Quando olhamos para cima, um grupo de 10 ou 15 machos se aproximava rapidamente. Meu cora\u00e7\u00e3o disparou \u2013 \u00e9ramos observados de perto. Nos agachamos e, em sil\u00eancio, esperamos um pouco.<\/p>\n\n\n\n

\u201cEstamos a dois metros de uma das esp\u00e9cies de primatas mais criticamente amea\u00e7adas do mundo\u201d, me sussurra Karen, visivelmente feliz. \u201cEles n\u00e3o est\u00e3o com medo, mas bravos porque estamos atrapalhando o caf\u00e9 da manh\u00e3 deles.\u201d<\/p>\n\n\n\n

A voltar para a sede fomos entendendo o universo que Karen encontrou h\u00e1 quase 38 anos quando come\u00e7ou suas pesquisas no Brasil. Em 1983, j\u00e1 decidida a desenvolver um estudo sobre o muriqui-do-norte e com financiamento garantido por Harvard, voltou a fazenda Montes Claros e se abrigou na casa de Feliciano Abdala, um brasileiro raro, que continuou apoiando o trabalho de Karen e sua equipe at\u00e9 morrer, em 2000, aos 92 anos.<\/p>\n\n\n\n

A pesquisadora passou 14 meses visitando a mata diariamente e passava, em m\u00e9dia, 12 horas sozinha, em sil\u00eancio, observando a floresta e acompanhando um grupo de 22 indiv\u00edduos. De certa forma, essa barreira natural da l\u00edngua foi determinante para o per\u00edodo de observa\u00e7\u00e3o e descobertas sobre o animal.<\/p>\n\n\n\n

\"Desde
Desde 1984 a Dra. Karen Strier coordena o projeto Muriquis de Caratinga, no qual monitora e estuda as popula\u00e7\u00f5es de muriqui-do-norte da RPPN Feliciano Miguel Abdala em Caratinga (MG). As pesquisas de campo de longa dura\u00e7\u00e3o v\u00eam fornecendo subs\u00eddios preciosos para a conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"Em
Em uma das estradas que cortam a RPPN Feliciano Miguel Abdala, Karen Strier observa com seus bin\u00f3culos um muriqui (no canto superior esquerdo) que se alimentava.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

\u201cEu acho que esse tempo na mata sozinha me ensinou primeiro a n\u00e3o estar distra\u00edda. Tive que aprender como chegar perto, como me comportar na presen\u00e7a do grupo de muriquis. Tudo que estava vendo era novo\u201d, diz Karen. \u201cComo j\u00e1 vinha treinando como antrop\u00f3loga e com a perspectiva comparativa dos babu\u00ednos, pude ver que os muriquis s\u00e3o absolutamente diferentes e eu estava aberta para essas possibilidades, mas com conhecimento. Porque \u00e0s vezes com conhecimento e cabe\u00e7a fechada n\u00e3o se v\u00ea as coisas, e sem conhecimento e com cabe\u00e7a aberta, n\u00e3o se sabe como interpret\u00e1-las.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Passamos um tempinho na casa sede e retornamos \u00e0 mesma trilha. Agora os muriquis estavam mais afastados. Mesmo assim, permanecemos cerca de duas horas conversando e observando os animais. Um grupo de machos bem ativos continuava se alimentando. Era o grupo do Mat\u00e3o, o mais antigo em observa\u00e7\u00e3o. Hoje, os pesquisadores acompanham cinco grupos e um total de 250 macacos na \u00e1rea da RPPN. Um dos m\u00e9todos da pesquisa e de identifica\u00e7\u00e3o implementados por Karen \u00e9 o do desenho manual da face de cada indiv\u00edduo, para que ele possa ser reconhecido em campo. Todos os estudantes e pesquisadores que passam pelo projeto, principalmente os bolsistas, utilizam as t\u00e9cnicas e rotinas que ela desenvolveu durante os 14 meses de pesquisa de campo de seu doutorado, cada um com seu desenho e caderneta. Outros dados tamb\u00e9m s\u00e3o coletados em tablets e passam para um centro comum de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n

Os muriquis-do-norte s\u00e3o hipnotizantes. A cara com marcas esbranqui\u00e7adas permite que cada um tenha uma carater\u00edstica \u00fanica de identifica\u00e7\u00e3o. E o m\u00e9todo de desenho manual \u00e9 fundamental para a pesquisa. \u201cCada pesquisador faz a sua interpreta\u00e7\u00e3o. Cada um tem seu jeito de v\u00ea-los\u201d, conta Karen.<\/p>\n\n\n\n

Caminhava conosco uma estudante bolsista do projeto, Camila Barrios, que j\u00e1 estava acompanhando o grupo do Mat\u00e3o desde as primeiras horas da manh\u00e3. Outras duas bolsistas monitoravam\u00a0o grupo Ja\u00f3, que frequenta \u00e1reas mais distantes da sede. Este ano, a equipe de estudantes \u00e9 100% feminina.<\/p>\n\n\n\n

\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Os muriquis comem frutos silvestres da Mata Atl\u00e2ntica, como estas bicu\u00edbas seguradas por Karen Strier. Eles comem a polpa vermelha e descartam casca e semente.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Al\u00e9m de frutos, folhas e flores representam uma parcela relevante na dieta dos muriquis.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Ficamos o resto da manh\u00e3 na trilha, observando o grupo de machos se alimentar, passar por entre n\u00f3s pelas copas das \u00e1rvores e relinchar muito. Enquanto monitoravam os animais, Karen e Camila trocavam percep\u00e7\u00f5es o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n

Pela observa\u00e7\u00e3o de longo prazo Karen pode descobrir carater\u00edsticas completamente in\u00e9ditas dos muriquis e o que os diferenciam de todos os demais primatas: vivem em uma sociedade pac\u00edfica, igualit\u00e1ria, n\u00e3o agressiva, resiliente e dispersora de sementes. Uma inspira\u00e7\u00e3o para a humanidade, de acordo com a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n

Foi o tempo de observa\u00e7\u00e3o que mostrou, por exemplo, que a f\u00eamea, depois de sete anos, sai do seu grupo para encontrar um novo e iniciar seu per\u00edodo reprodutivo. Boa parte das informa\u00e7\u00f5es iniciais j\u00e1 mostravam que o comportamento desses animais era completamente diferente de tudo o que se conhecia sobre primatas. Outros dados gen\u00e9ticos e sobre fertilidade vieram do coc\u00f4. Isso mesmo, as fezes do muriqui s\u00e3o essenciais para o m\u00e9todo n\u00e3o invasivo de Karen, que diz sempre colocar o bem-estar dos animais \u00e0 frente de seus objetivos cient\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n

\u201cPosso ficar anos e anos os seguindo e ainda n\u00e3o vou conhecer a fisiologia, os horm\u00f4nios. Ent\u00e3o, desenvolvemos pesquisas cujos m\u00e9todos n\u00e3o exigem contato nenhum com os animais\u201d, conta Karen. \u201cFizemos isso atrav\u00e9s das fezes, e o coc\u00f4 \u00e9 uma subst\u00e2ncia m\u00e1gica: recicl\u00e1vel, regener\u00e1vel, e eles fazem v\u00e1rias vezes por dia. Depois da coleta, e usando as t\u00e9cnicas de laborat\u00f3rio, se extrai informa\u00e7\u00f5es sobre horm\u00f4nios, gen\u00e9tica.\u201d<\/p>\n\n\n\n

\"filhote
Aproveitando uma pausa no deslocamento dos adultos, um filhote se diverte fazendo acrobacias entre os galhos. As brincadeiras ajudam no desenvolvimento motor e social dos pequenos muriquis.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Uma das principais peculiaridades dos muriquis percebidas nas primeiras observa\u00e7\u00f5es feitas por Karen Strier s\u00e3o suas rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas na coopera\u00e7\u00e3o \u2013 raramente apresentam comportamento agressivo e \u00e9 comum v\u00ea-los abra\u00e7ando uns aos outros.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Karen acredita que, al\u00e9m de contribuir para a tranquilidade de indiv\u00edduos de uma esp\u00e9cie criticamente amea\u00e7ada, o m\u00e9todo n\u00e3o invasivo para obter informa\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas tamb\u00e9m pode ser \u00fatil se, por algum motivo, veterin\u00e1rios precisarem manipular um animal. Mas fazer toda a coleta e enviar esses materiais para an\u00e1lises em laborat\u00f3rios nos anos 1980 n\u00e3o era uma tarefa simples. Karen relata que s\u00f3 foi poss\u00edvel com a colabora\u00e7\u00e3o de muitas pessoas, desde pesquisadores a moradores das comunidades pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n

Em 1992, a americana lan\u00e7ou a primeira edi\u00e7\u00e3o do livro Faces das Floresta<\/em>. Em 1994, um artigo que rodou, e roda, o mundo, O mito do primata t\u00edpico<\/em>, apresentou o que ela vinha descobrindo sobre o maior macaco das Am\u00e9ricas. Essas duas obras mudaram a percep\u00e7\u00e3o do que se conhecia sobre os muriquis-do-norte. O que se supunha at\u00e9 ent\u00e3o vinha de refer\u00eancias de animais completamente diferentes do macaco brasileiro. Pensava-se que eram como chipanz\u00e9s, entre os quais brigas e agressividade por comida ou f\u00eameas s\u00e3o atitudes comuns. Mas por aqui, na Mata Atl\u00e2ntica, n\u00e3o tem guerra.<\/p>\n\n\n\n

Depois de uma manh\u00e3 extasiante ao lado dos macacos e da pesquisadora, fizemos uma pausa durante a hora mais quente, quando os animais tamb\u00e9m diminuem a atividade. Voltamos para a mata \u00e0s duas da tarde. Karen j\u00e1 tinha recebido as informa\u00e7\u00f5es das pesquisadoras sobre f\u00eameas que estavam se locomovendo em outra parte da RPPN. Seguimos para l\u00e1, mas, enquanto nos prepar\u00e1vamos para uma \u00edngreme subida, ela fez uma pausa e sugeriu que esper\u00e1ssemos pois, provavelmente, ter\u00edamos uma surpresa.<\/p>\n\n\n\n

Em menos de 20 minutos, um grupo grande de machos passou por n\u00f3s. Atr\u00e1s deles vinham\u00a0algumas m\u00e3es carregando filhotes em suas costas. Pareceu que Karen tinha combinado algo com os bichos. Mas, na verdade, trata-se de mais uma habilidade adquirida com o tempo na floresta e com os muriquis: Karen ouve sua intui\u00e7\u00e3o. \u201cQuando estava come\u00e7ando a seguir os muriquis, \u00e0s vezes era muito dif\u00edcil chegar at\u00e9 eles pelas trilhas, o que me deixava pensando: se fosse um muriqui o que faria agora?\u201d, perguntou-se Karen. \u201cMuitas vezes acertei com esse pensamento.\u201d<\/p>\n\n\n\n

\"muriquis-da-caratinga-karen-strier\"\/
Ao lado da bi\u00f3loga Fernanda Tabacow, Karen observa um recinto constru\u00eddo na Reserva do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira, onde os \u00faltimos dois machos de uma popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o foram colocados juntos com duas f\u00eameas para tentar salvar as informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas do grupo.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
\"karen
Karen Strier conversa sobre os detalhes do projeto de manejo de quatro muriquis na Reserva de Ibitipoca, em Minas Gerais, com os bi\u00f3logos Fernanda Tabacow, Marcelo Nery e Fabiano de Melo (\u00e0 direita), do Muriqui Instituto de Biodiversidade. Todos trabalharam com Karen no passado.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

A sequ\u00eancia de comportamentos que pudemos assistir, ali parados, foi emocionante e inesperada para todos que testemunharam. Alguns macacos come\u00e7aram a beber a \u00e1gua que fica represada em buracos nas \u00e1rvores. Com m\u00e3o em forma de cuia, coletam a \u00e1gua e ingerem tranquilamente, um de cada vez. A cena deixa Karen satisfeita. Pouco antes eu havia a indagado sobre algumas amea\u00e7as previs\u00edveis, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A pesquisadora me contou que essa \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o para todos que trabalham com conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies. Grandes per\u00edodos de secas \u2013 que devem se tornar mais comuns com o aumento da temperatura global \u2013 podem ser determinantes para o futuro dos muriquis.<\/p>\n\n\n\n

Poucos minutos depois, antes das cinco da tarde do primeiro dia acompanhando os animais, outro momento especial: um grupo de pelo menos 10 machos come\u00e7a a descer das \u00e1rvores e se aproxima de n\u00f3s. Quase rente ao ch\u00e3o, cinco deles fazem o que os pesquisadores chamam de \u201ccacho\u201d \u2013 sobem um em cima do outro e ficam olhando e vocalizando em nossa dire\u00e7\u00e3o. Em seguida, ainda no ch\u00e3o, aproximaram-se mais um pouco at\u00e9 ficar a alguns metros de dist\u00e2ncia. A pedido de Karen, sa\u00edmos imediatamente e voltamos para estrada principal.<\/p>\n\n\n\n

Foram cenas inesquec\u00edveis que deixaram a equipe em \u00eaxtase. A pesquisadora saiu para a estrada com sorriso no rosto. \u201cEu volto a sentir como se tivesse vinte e poucos anos. A pesquisa aberta, mil perguntas, curiosidade profunda \u2013 a\u00ed n\u00e3o consigo parar\u201d, diz Karen.<\/p>\n\n\n\n

A cena dos muriquis n\u00e3o era in\u00e9dita \u2013 tanto Karen quanto suas estudantes bolsistas j\u00e1 tinham presenciado comportamento parecido anteriormente. Ali\u00e1s, Camila Barrios e Isabella Moreira, outra pesquisadora do projeto, comentaram que a atitude parece estar acontecendo com maior frequ\u00eancia. \u201cEstamos com d\u00favidas se est\u00e1 acontecendo ou se \u00e9 s\u00f3 impress\u00e3o\u201d, comenta Karen. \u201cPara entender o que significa, se \u00e9 realmente algo diferente ou apenas uma mudan\u00e7a de comportamento, se eles est\u00e3o importando uma atitude das \u00e1rvores para o ch\u00e3o, precisamos mais observa\u00e7\u00e3o e jun\u00e7\u00e3o de dados.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Ao longo dos dias me chamou a aten\u00e7\u00e3o a cautela da pesquisadora no uso das palavras. Nada \u00e9 definitivo, nada est\u00e1 fechado, mas \u00e9 recorrente o uso da intui\u00e7\u00e3o e da criatividade, inclusive em conversas que tive com as bolsistas. \u201cMuitas pessoas acham que a criatividade e a intui\u00e7\u00e3o est\u00e3o de um lado e a ci\u00eancia, que \u00e9 algo muito r\u00edgido, de outro. Mas eu n\u00e3o vejo ci\u00eancia funcionando sem criatividade e\u00a0intui\u00e7\u00e3o\u201d, comenta Karen. \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que quando sinto, quero testar se meu sentimento est\u00e1 correto, a\u00ed entra na quest\u00e3o de como compatibilizar as duas coisas.<\/p>\n\n\n\n

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Enquanto se deslocam pelo dossel em busca de alimento, as m\u00e3es transmitem o conhecimento da floresta aos seus filhotes, sempre presentes a tiracolo.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n
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Com 1,5 metro de comprimento e cerca de 9 kg, o muriqui \u00e9 considerado o maior macaco das Am\u00e9ricas.
FOTO DE\u00a0JO\u00c3O MARCOS ROSA<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

Para fechar o dia fomos at\u00e9 o mirante aberto para visita\u00e7\u00e3o da RPPN. Com o calor ainda intenso, \u00e9 poss\u00edvel ver perfeitamente a ilha de conserva\u00e7\u00e3o rodeada de morros j\u00e1 desmatados. Os ent\u00e3o 900 hectares de floresta da fazenda Montes Claros, conservada pelo amor de Feliciano Abdala por essa mata densa, virou uma Reserva Particular do Patrim\u00f4nio Natural em 2001. Hoje, a reserva \u00e9 administrada pelo neto, Ramiro Abdalla Passos, atrav\u00e9s da ONG Preserve Muriqui, da qual Karen \u00e9 diretora cientifica. \u201cMeu av\u00f4 admirava muito o trabalho dela\u201d, comenta Ramiro. \u201cHoje a Karen nos ajuda a buscar recursos, descobre oportunidades, nos insere e participa do equil\u00edbrio das pesquisas que acontecem aqui dentro, que n\u00e3o s\u00e3o apenas sobre os muriquis.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Este ano, um projeto de ecoturismo para observa\u00e7\u00e3o dos animais ser\u00e1 inaugurado na reserva. Assim como acontece com algumas esp\u00e9cies no continente africano, como chimpanz\u00e9s e gorilas, a ideia \u00e9 atrair conservacionistas e ecoturistas interessados em ver o muriqui-do-norte em seu ambiente natural. H\u00e1 tamb\u00e9m uma expectativa de que a renda possa atrair mais recursos para estruturar a visita\u00e7\u00e3o, treinar e remunerar guias e contribuir com a pr\u00f3pria conserva\u00e7\u00e3o do muriqui.<\/p>\n\n\n\n

Ver com calma para ver melhor<\/strong><\/h3>\n\n\n\n

No segundo dia, encontramos novamente com Karen na sede da RPPN e seguimos a p\u00e9 pela estrada que corta a reserva. A mata \u00e9 farta para os animais. Pela trilha pudemos ver muitas cascas de bicu\u00edbas j\u00e1 devoradas pelos animais. A fruta, quando madura, exibe uma forte colora\u00e7\u00e3o avermelhada e \u00e9 um dos alimentos preferidos do muriqui. N\u00e3o demorou muito para, ali mesmo, come\u00e7armos a ver novamente alguns indiv\u00edduos do grupo Mat\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Desta vez, muitas m\u00e3es com filhotes. Alguns filhotes estavam come\u00e7ando a trocar o leite pelas folhagens. Carregando os muriquis de pelo bem loirinho, as m\u00e3es faziam a \u201cponte\u201d, movimento em que utilizam a longa cauda para se segurar no galho de uma \u00e1rvore e os bra\u00e7os no de outra, criando uma passagem para que o filhote atravesse as \u00e1rvores. Muito outros indiv\u00edduos continuavam se alimentando e se abra\u00e7ando. O tempo todo. O toque \u00e9 algo fundamental no comportamento do muriqui \u2013 demonstra companheirismo, presen\u00e7a, uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Al\u00e9m de serem as f\u00eameas que deixam o grupo ao atingir maturidade sexual \u2013 algo raro entre mam\u00edferos \u2013 a c\u00f3pula dos muriquis tamb\u00e9m \u00e9 um caso peculiar. N\u00e3o existe agressividade nem entre os machos, nem entre machos e f\u00eameas. Em parte, porque ambos t\u00eam o mesmo tamanho, mas, sobretudo, pela atitude d\u00f3cil desses primatas. Os machos nunca competem pela f\u00eamea e a f\u00eamea pode copular com quantos machos quiser. Se um macho \u00e9 preterido, n\u00e3o tem problema. Sem estresse no mundo dos muriquis. Uma sociedade igualit\u00e1ria, da n\u00e3o viol\u00eancia e com muito abra\u00e7o e apoio. D\u00e1 ou n\u00e3o d\u00e1 para nos inspirarmos com os muriquis-do-norte?<\/p>\n\n\n\n

\u201cQuando estava come\u00e7ando a seguir os muriquis, \u00e0s vezes era muito dif\u00edcil chegar at\u00e9 eles pelas trilhas, o que me deixava pensando: se fosse um muriqui o que faria agora? Muitas vezes acertei com esse pensamento.\u201d<\/h3>\n\n\n\n

POR KAREN STRIER<\/strong>PRIMAT\u00d3LOGA<\/p>\n\n\n\n

\u00c9 a possibilidade de trazer informa\u00e7\u00f5es valiosas para a ci\u00eancia que faz da pesquisa de longo prazo um trabalho t\u00e3o importante. A organiza\u00e7\u00e3o na coleta dos dados, possibilitando a utiliza\u00e7\u00e3o pelos especialistas atrav\u00e9s de uma matriz de dados existe gra\u00e7as a dedica\u00e7\u00e3o e a atua\u00e7\u00e3o permanente e persistente de Karen e seus colaboradores. Por isso, todos em campo andam com tablets, coletando informa\u00e7\u00f5es sobre que animal foi avistado, que tipo de atividade foi observada, quais eram os indiv\u00edduos no entorno, a localiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Para Karen, a disponibiliza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, tanto pelos seus artigos e a prol\u00edfica produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, quanto por essas trocas, treinamentos e colabora\u00e7\u00f5es, \u00e9 vital. \u201cD\u00e1 continuidade a vida de cada animal. E, quando essas pessoas v\u00e3o embora, treinamos outras pessoas, e quando elas v\u00e3o embora, outras\u201d, comenta Karen. \u201cIsso possibilitou que aument\u00e1ssemos muitas coisas no projeto. Hoje, n\u00e3o \u00e9 apenas um grupo sendo monitorado, s\u00e3o cinco grupos com quatro pessoas na mata direto \u2013 estamos treinando muita gente, \u00e9 a continuidade do acompanhamento.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Reconhecimento internacional<\/strong><\/h3>\n\n\n\n

\u201cEste \u00e9 o estudo sobre primata em \u00e1rea neotropical de longo prazo mais antigo e dentre os mais importantes do mundo\u201d, me conta o primat\u00f3logo Russell Mittermeier em entrevista por telefone. \u201cN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no mundo que fez tanto para treinar pessoas em um pa\u00eds tropical no estudo de um primata t\u00e3o importante. Karen merece todo reconhecimento. Ela fez muito para o desenvolvimento da ci\u00eancia e da primatologia neste pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Em quase 38 anos de exist\u00eancia, o projeto Muriqui de Caratinga j\u00e1 formou 75 pessoas em mestrado, doutorado ou colabora\u00e7\u00f5es em estudos pr\u00f3prios. Esse volume nos permite imaginar como o conhecimento dessa pesquisadora j\u00e1 foi replicado e como seus estudos influenciam cientistas no Brasil e o mundo.<\/p>\n\n\n\n

Pergunto de onde ela tira tanta inspira\u00e7\u00e3o. \u201cEu gostaria de pensar que eu consigo, de uma forma ou de outra, pelo treinamento, pela produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, despertar o interesse das pessoas. Porque \u00e9 fascinante o que a gente est\u00e1 fazendo com os muriquis e a import\u00e2ncia de tudo isso. Eu mostro que \u00e9 poss\u00edvel \u2013 se tiver interesse, se tiver paix\u00e3o \u2013 conseguir seguir seus sonhos.\u201d<\/p>\n\n\n\n

\u00c0 noite, em nossa despedida de Caratinga, confraternizamos com toda a equipe de mulheres pesquisadoras e Karen. Foi divertido. Nesses momentos, n\u00e3o deixo de pensar em como, se n\u00e3o fosse pelo sotaque, ela passaria por brasileira, adaptando-se rapidamente ao jeitinho do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n

Febre amarela e a rede Muriqui<\/strong><\/h3>\n\n\n\n

Se no passado a ca\u00e7a foi um dos grandes motivos do decl\u00ednio dos muriquis-do-norte na Mata Atl\u00e2ntica, hoje a fragmenta\u00e7\u00e3o da floresta somada a outros fatores imponder\u00e1veis, como mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e doen\u00e7as, preocupam todos que trabalham pela conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n

Para melhor entender o futuro das pesquisas com esses animais, sa\u00edmos de Caratinga e rodamos 400 km rumo a Concei\u00e7\u00e3o do Ibitipoca, um distrito do munic\u00edpio de Lima Duarte, na Zona da Mata mineira. Por l\u00e1, em outra reserva particular, a Reserva do Ibitipoca, acompanhamos um novo projeto de pesquisa com esses primatas. Essa nova etapa veio acompanhada de uma mudan\u00e7a nos m\u00e9todos de Karen. A urg\u00eancia exigida em caso de doen\u00e7as a fez abrir exce\u00e7\u00f5es importantes na abordagem n\u00e3o invasiva de pesquisa. Em 2016, a febre amarela chegou com tudo na Mata Atl\u00e2ntica. Em Minas Gerais, foi devastadora. Ainda hoje se fala de matas silenciosas, de onde os macacos bugios, ou barbados, sumiram.<\/p>\n\n\n\n

Uma das principais colaboradoras de Karen Strier, a bi\u00f3loga Carla de Borba Possamai, que come\u00e7ou a estagiar com a pesquisadora em 2001, hoje est\u00e1 a frente de um novo estudo sobre o impacto da doen\u00e7a em primatas. O projeto contou com financiamento da National Geographic Society.<\/p>\n\n\n\n

Entre os muriquis de Caratinga, a perda foi de cerca de 100 indiv\u00edduos em dois anos. Mas Karen \u00e9 categ\u00f3rica, e mais uma vez ponderada, com os n\u00fameros e as associa\u00e7\u00f5es. \u201cNo surto da febre amarela que n\u00f3s usamos como refer\u00eancia, entre os meses de outubro de 2016 e abril de 2017, perdemos 31 muriquis, que desapareceram, mas n\u00e3o temos como dizer que foi febre amarela\u201d, conta Karen. \u201cEu comparei os mesmos meses com os de outros anos e nunca tivemos uma perda de tantos animais em um prazo t\u00e3o curto. Ent\u00e3o, \u00e9 muito prov\u00e1vel que, pelo menos em parte, esses animais morreram por causa da febre amarela ou algo ligado a doen\u00e7as.\u201d O n\u00famero de mortes representou, na \u00e9poca, um decl\u00ednio de 10% da popula\u00e7\u00e3o de muriquis da RPPN Feliciano Miguel Abdala em apenas seis meses.<\/p>\n\n\n\n

Apesar do desespero que tomou conta da pesquisadora, ela prefere ser realista e pensar nos que sobreviveram. \u201cAinda com 250 muriquis, isso j\u00e1 \u00e9 cinco vezes mais do que era quando eu comecei em Caratinga, quando havia dois grupos, cada um com uns 22 indiv\u00edduos\u201d, comenta ela. \u201cO que se v\u00ea \u00e9 a pot\u00eancia da natureza em se recuperar e a fragilidade de ser perdida.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Em Concei\u00e7\u00e3o do Ibitipoca, o projeto de um grupo de pesquisadores tenta salvar umapopula\u00e7\u00e3o de muriquis-do-norte que foi diminuindo at\u00e9 sobrarem apenas dois machos. Existia o medo de perder as informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas dessa popula\u00e7\u00e3o e s\u00f3 restariam duas op\u00e7\u00f5es: levar para o cativeiro ou deixar se extinguirem. O projeto foi discutido no \u00e2mbito do Plano de A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN dos Muriquis), uma iniciativa do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodivesidade (ICMBio) para salvar duas esp\u00e9cies \u2013 Brachyteles hypoxanthus, <\/em>o muriqui-do-norte, e Brachyteles arachnoides<\/em>, muriqui-do-sul \u2013 da extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Todos os pesquisadores envolvidos decidiram tentar recuperar a popula\u00e7\u00e3o, criando um novo grupo social ao introduzir novas f\u00eameas entre os machos restantes. Os cientistas escolheram duas f\u00eameas que estavam isoladas ou a procura de outro grupo. Esse projeto \u00e9 tocado pelo Muriqui Instituto de Biodiversidade atrav\u00e9s de dois colaboradores que j\u00e1 passaram, de alguma forma, por Karen e o Muriqui de Caratinga. Fabiano de Melo \u00e9 colaborador de Karen e fez p\u00f3s-doutorado com ela nos EUA. J\u00e1 a bi\u00f3loga Fernanda Tabacow fez mestrado com Karen na Universidade Federal de Vi\u00e7osa e foi bolsista do projeto em 2005.<\/p>\n\n\n\n

Passamos dois dias acompanhando as reuni\u00f5es e expectativas com rela\u00e7\u00e3o ao projeto e conhecendo a Casa do Muriqui, onde est\u00e3o os quatro indiv\u00edduos. Se tudo der certo, e os animais conseguirem se reproduzir, ser\u00e1 a primeira vez que uma popula\u00e7\u00e3o de muriquis \u00e9 recuperada.<\/p>\n\n\n\n

Encerramos a viagem inspirados por Karen e todo um grupo de cientistas que trabalham incansavelmente pela conserva\u00e7\u00e3o. Percebemos que a natureza, quando ajudada, responde de maneira contundente. O esp\u00edrito conservacionista dessas pessoas \u00e9 de amor pela biodiversidade. \u00c9 de fazer parte dela. E, no fim, vejo que a generosidade, a colabora\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito livre \u2013 meio hippie \u2013 dos muriquis-do-norte, tamb\u00e9m trasbordam em Karen Strier.<\/p>\n\n\n\n

Certa vez, ela me contou sobre sua admira\u00e7\u00e3o desde crian\u00e7a pela Mulher-Maravilha e como costuma inserir a personagem em suas palestras. Depois de testemunhar a predomin\u00e2ncia das mulheres na primatologia, confirmada por Russell Mittermeier, e de ter convivido durante alguns dias com uma de suas maiores refer\u00eancias, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que Karen Strier tamb\u00e9m \u00e9, pelo menos no mundo da conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, uma super-hero\u00edna.<\/p>\n\n\n\n

Esta reportagem foi parcialmente financiada pela Funda\u00e7\u00e3o Toyota do Brasil. Paulina Chamorro \u00e9 jornalista\u00a0e Jo\u00e3o Marcos Rosa, fot\u00f3grafo, ambos\u00a0colaboradores\u00a0da National Geographic Brasil. Conhe\u00e7a o trabalhos deles no Instagram:\u00a0@Pauli_Chamorro\u00a0e\u00a0@JoaoMarcosRosa.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Fonte: \u00a0<\/em>Paulina Chamorro – National Geographic <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Al\u00e9m de descrever quase tudo que sabemos sobre o criticamente amea\u00e7ado muriqui-do-norte, o esfor\u00e7o de 38 anos de pesquisas de Karen Strier ajudou a recuperar uma popula\u00e7\u00e3o em Minas Gerais e deu esperan\u00e7a de um futuro para a esp\u00e9cie. <\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":3,"featured_media":157267,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[2612,1757,43,702],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157266"}],"collection":[{"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=157266"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":157268,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157266\/revisions\/157268"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/media\/157267"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=157266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=157266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/localhost\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=157266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}