ONGs pedem a Biden que governo americano pare de negociar a ‘portas fechadas’ com Bolsonaro sobre meio ambiente

Em carta enviada ao presidente americano, cerca de 200 organizações afirmam que decisões sobre o meio ambiente e Amazônia devem envolver sociedade civil e populações locais, e que Bolsonaro é 'pior inimigo'.

‘Gigantes’ na Amazônia: santuário com castanheiras e angelins-vermelhos no Amapá — Foto: Rafael Aleixo/Setec/Divulgação

Cerca de 200 organizações não governamentais ligadas ao meio ambiente enviaram carta nesta terça-feira (6) ao presidente norte-americano, Joe Biden, na qual criticam negociações “a portas fechadas” com o Brasil sobre a Amazônia.

Além disso, a carta aponta que negociações e acordos entre os países que não levem em conta a sociedade civil, os governos subnacionais, a academia e populações locais representam endosso ao que chamam “tragédia humanitária e ao retrocesso ambiental e civilizatório imposto por Bolsonaro”.

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O documento também defende que nenhum acordo deve ser firmado com o governo do presidente Jair Bolsonaro antes que o desmatamento na Amazônia seja reduzido aos níveis determinados pela Política Nacional sobre Mudança do Clima.

“Não é razoável esperar que as soluções para a Amazônia e seus povos venham de negociações feitas a portas fechadas com seu pior inimigo”, diz o documento.

“Qualquer projeto para ajudar o Brasil deve ser construído a partir do diálogo com a sociedade civil, os governos subnacionais, a academia e, sobretudo, com as populações locais que até hoje souberam proteger a floresta e todos os bens que ela abriga”, completa trecho da carta.

Maior desmatamento em 10 anos

Desmatamento na Amazônia em 2020 foi o maior dos últimos 10 anos

Em 2020, o desmatamento na Amazônia foi o maior nos últimos dez anos, como mostra o vídeo acima. Cerca de 8 mil quilômetros de floresta foram destruídos entre janeiro e dezembro do ano passado. É como se um espaço que equivale a cinco cidades de São Paulo desaparecesse.

Segundo o Observatório do Clima, uma das entidades que assina a carta, os Estados Unidos mantém conversas com o Brasil a portas fechadas sobre o meio ambiente há mais de um mês. Um acordo entre os dois países deverá ser anunciado ainda em abril.

“Um acordo entre os dois países deverá ser anunciado na cúpula sobre o clima convocada por Biden para os próximos dias 22 e 23. Fontes próximas à negociação afirmam que o acordo deve envolver transferência de recursos para o Brasil — na campanha, Biden chegou a falar em levantar US$ 20 bilhões para a Amazônia”, diz comunicado do Observatório do Clima.

Na carta, as entidades lembram o discurso de campanha de Joe Biden, que prometeu lutar pela democracia e pelo meio ambiente, e cobram que o presidente americano se posicione.

“O Brasil é hoje um país dividido. De um lado, estão os indígenas, quilombolas, cientistas, ambientalistas e pessoas que atuam contra o desmatamento e pela vida. De outro, está o governo Bolsonaro, que ameaça os direitos humanos, a democracia e coloca em risco a Amazônia. Biden precisa escolher de que lado ficará”, afirmou Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Retrocessos ambientais

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As entidades lembraram na carta enviada à Biden os retrocessos ambientais que vem ocorrendo durante o governo Bolsonaro, como o sucateamento de órgãos de fiscalização ambiental e combate ao desmatamento e queimadas, como o Ibama, e os projetos que tentam legalizar a mineração e a construção de hidrelétricas em terras indígenas na Amazônia.

“O governo Bolsonaro tenta a todo custo legalizar a exploração da Amazônia, trazendo prejuízos irreversíveis para nossos territórios, povos e para a vida no planeta”, disse Alberto Terena, coordenador- executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, outra ONG signatária da carta.

“Quando o Cerrado, a Amazônia ou o Pantanal queimam, é o nosso povo que queima. O governo Bolsonaro faz acordos bilaterais de destruição da natureza que não cumprem o que está na Constituição; ele não respeita e não demarca nossos territórios”, afirmou Biko Rodrigues, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas.

Fonte: G1