Vírus Araraquara é capaz de infectar morcegos

Além de dar nome a uma cidade no interior do Estado de São Paulo, Araraquara, que em tupi significa “toca das araras”, também é a denominação de uma espécie brasileira de vírus transmitido pela urina e fezes de roedores silvestres (hantavírus) que pode ser a mais virulenta desse gênero no mundo.

Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) identificou que, além de roedores silvestres, que são reservatórios naturais do vírus, o hantavírus Araraquara também é capaz de infectar morcegos.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, foram apresentados em uma palestra sobre vírus emergentes na 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada entre os dias 16 e 22 de julho no campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte (MG).

“Encontramos o vírus Araraquara no sangue, nas fezes e na urina de morcegos”, disse Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da FMRP-USP. “Precisamos saber, agora, qual é o papel dos morcegos no ciclo de manutenção desse hantavírus na natureza e se podem infectar roedores e, eventualmente, o homem”, afirmou.

Os pesquisadores capturaram 154 mamíferos, 254 morcegos e pequenos carrapatos desses animais nos municípios de Luiz Antônio, Cajuru e Batatais, localizados na região metropolitana de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e em Montes Claros, em Minas Gerais.

As análises laboratoriais indicaram a presença de anticorpos do hantavírus principalmente em ratos do rabo peludo (Necromys lasiurus) – considerada uma das espécies de roedores com maior número de casos de infecção, ao lado do ratinho do arroz (Oligoryzomys nigripes) e do rato da mata (Akodon montensis) – e em morcegos do gênero Carollia e na espécie Desmodus rotundus, conhecida popularmente como morcego-vampiro, que se alimenta de sangue (hematófago).

O vírus, contudo, não foi encontrado nos carrapatos que parasitam tanto morcegos como roedores silvestres, como ratos do rabo peludo.

“Já tinha sido descrita a infecção de morcegos por hantavírus. Mas esta é a primeira vez que foi identificada com tais evidências a presença de um hantavírus que causa doença em humanos nesses animais”, ponderou Figueiredo.

“Isso abre um novo campo de estudo sobre epidemiologia de hantaviroses no Brasil”, avaliou.

Hantavírus americanos – De acordo com o pesquisador, os hantavírus teriam se originado na região central da Ásia e chegado ao continente americano há, aproximadamente, 500 anos.

Esse gênero de vírus é conhecido desde a década de 1970 no “velho mundo” – principalmente na Ásia e Europa – como causador de uma doença chamada febre hemorrágica com síndrome renal, cujo maior número de casos está concentrado na China.

Só na década de 1990 foram descobertas variantes desse vírus, batizadas de hantavírus americanos, que causam uma doença diferente da provocada pelos hantavírus no velho mundo: uma síndrome pulmonar, caracterizada por uma pneumonia muito grave e por alterações cardiovasculares.

“Hoje, as definições das doenças causada por hantavírus que têm sido adotadas são doença por hantavírus, febre hemorrágica por síndrome renal ou síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus”, disse Figueiredo.

No Brasil, além do Araraquara, há diversos hantavírus conhecidos, como o Juquitiba, o Araucária, o Castelo dos Sonhos e o Anajatuba.

O país registra 1.892 casos confirmados de infecção por hantavírus, sendo 736 fatais, o que mostra que é uma virose de altíssima letalidade.

As regiões com maior número de casos são o Sul do país – principalmente Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul –, o nordeste de São Paulo, o Triângulo Mineiro e o Planalto Central.

“A doença do hantavírus está relacionada com o desmatamento, causado pelo aumento da urbanização e a expansão das fronteiras agrícolas”, afirmou Figueiredo. “O avanço das cidades e da agricultura sobre o meio rural, onde estão os roedores infectados, facilita a transmissão do hantavírus”, explicou.

O vírus é transmitido ao homem ao entrar em contato com a urina ou as fezes de um animal infectado.

Os sintomas iniciais da doença causada pelo hantavírus – a síndrome pulmonar e cardiovascular – são febre, tosse seca, náusea, vômito, dor de cabeça e um pouco de falta de ar.

Três dias após a infecção, os pacientes desenvolvem uma pneumonia gravíssima, com falta de ar severa. Para agravar o quadro, começam a ter síndrome de extravasamento de líquido, fenômenos hemorrágicos e queda de pressão arterial. “É uma doença muito grave, que inunda o pulmão do paciente com seu próprio plasma sanguíneo”, disse Figueiredo.

O pesquisador, em colaboração com colegas da FMRP-USP, tem estudado tanto pacientes infectados com o hantavírus Araraquara que sobreviveram, como também os que morreram.

As análises indicaram que a letalidade da doença nas regiões nordeste de São Paulo, no Triângulo Mineiro e no Planalto Central é maior do que no resto do Brasil, chegando a 50%.

“Inferimos estatisticamente que o Araraquara é, provavelmente, o hantavírus mais virulento no Brasil e no mundo”, afirmou.

“Só não sei se a população de Araraquara sabe que puseram o nome da cidade nesse vírus horroroso”, brincou. (Fonte: Agência FAPESP)

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