No Espírito Santo, lavouras inteiras estão comprometidas por causa da seca. Perto do litoral, a estiagem traz uma consequência inesperada. A imagem do pasto tão seco impressiona o produtor de leite. “Tenho 28 anos e nunca vi a situação igual a essa não”, conta.
Pior foi com o café, o principal produto da agricultura do Espírito Santo. A produção caiu quase pela metade. “Foi seca mesmo, ele está morrendo. Automaticamente, ele está morrendo. Vai morrendo uma galha, vai morrendo outra, até morrer o pé todo”, diz um produtor.
Não tem água da chuva e nem da irrigação, que está proibida. A prioridade é usar a água para o consumo humano. Quinze municípios já estão fazendo racionamento, porque as lagoas estão secas e o nível dos rios, como o Santa Maria, também está muito baixo.
“Nessa época, o nível daria mais ou menos três vezes o montante de água existente hoje no rio”, compara o presidente do Comitê do Rio Santa Maria, Roberto Ribeiro.
Alguns rios estão com nível tão baixo que, quando chegam à praia, não têm força para desaguar no oceano e é o mar que está avançando e deixando a água dos rios bem mais salgada. Em algumas cidades, no litoral, as pessoas percebem isso dentro de casa.
Pelas ruas de São Mateus, no norte do Espírito Santo, a toda hora tem gente indo buscar água doce na nascente. “Até três vezes na semana, dependendo do gasto”, aponta uma moradora.
Por todo o canto da casa do seu Laílton, tem garrafas plásticas e baldes. Até na lixeira ele guarda água, porque o que vem da torneira não dá nem para lavar a roupa.
A companhia de saneamento analisou a água do rio Cricaré, que abastece a cidade. A medida de sal passa de 2 mil ppms, “PPM significa partes por milhão. Se a água do rio tem 2 mil partes por milhão de cloreto de sódio, significa que ela tem 2 mil miligramas de cloreto de sódio por litro de água, que é muita coisa, equivale a 2 gramas de cloreto de sódio por litro de água. É muito sal”, explica a professora de química Luciana Biazati.
É o mesmo que derramar dois sachês em um litro de água. O repórter Mário Bonella experimentou. “Ela tem um gosto não é muito salgado, mas é mais salgado”, avalia.
“É uma água que o pessoal chama salobra”, destaca o cardiologista Geraldo Mill. O médico diz que, assim, a água não serve para cozinhar e muito menos para beber. “Essa água tem uma quantidade de sal dez vezes acima do que é recomendado”, aponta.
A saída em São Mateus é perfurar poços para abastecer a população. “Nós estamos correndo atrás para fazer cinco poços o mais rápido possível, para tentar fornecer uma água dentro do padrão de potabilidade”, diz o diretor do Sistema de Água e Esgoto, Luiz Sossai. (Fonte: G1)