Mudanças climáticas intensificaram temporais em 20% no Nordeste, diz estudo

Relatório aponta que, conforme o planeta aquece, eventos climáticos extremos se tornam mais fortes e frequentes

Chuvas intensas na região de Pernambuco, resultaram em inundações e deslizamento de terras (Foto: Reprodução/Rafael Vieira/Diário de Pernambuco)

Durante a segunda quinzena de maio e se entendendo até o início de junho, o Nordeste brasileiro sofreu com intensas chuvas que acabaram superando em 70% o volume de água esperado no mês. O impacto desse acúmulo de água resultou em inúmeras tragédias, deixando mais de 25 mil pessoas desalojadas e cerca de 133 mortos.

Esse evento climático extremo levou a World Weather Attribution, junto a pesquisadores do Brasil, Holanda, França, Estados Unidos e Reino Unido a realizar uma análise sobre como a mudança climática causada pelo aquecimento global contribuiu para o desastre natural.

De acordo com os dados, apesar de raro, o evento se tornou 20% mais propenso a ocorrer com mais intensidade devido a mudança do clima. Os resultados do estudo foram divulgados em um documento apresentado em coletiva de imprensa nesta terça-feira (5).

Atribuição de eventos

A equipe realizou um estudo analisando informações de níveis de chuva de 75 estações meteorológicas que continham dados desde a década de 1970. A região observada nos períodos de sete e 15 dias foi justamente a afetada pelos desastres de maio deste ano.

Ao simularem esse evento extremo em modelos climáticos, com e sem a projeção dos gases do efeito estufa, foi possível descobrir que, além de raro – com uma chance em 500 ou uma em mil de acontecer em um único ano – o desastre foi intensificado em 20% devido à mudança do clima.

“Através dos resultados chegamos à conclusão que, a cada fração de grau que o planeta aquece, o aumento desses eventos extremos se torna cada vez mais frequente e intenso”, destaca Lincon Alves, pesquisador Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De acordo com o estudo, a temperatura do planeta já aumentou em 1,2°C desde o final do século 19.

Mais riscos de desastres

O relatório também pontuou o aumento dos impactos causados pela chuva devido à vulnerabilidade da população. De acordo com Alexander Koberle, pesquisador do Grantham Institute da Universidade Imperial College de Londres, na região de Recife a expansão urbana em áreas de risco foi um dos fatores que ampliaram os desastres como deslizamentos de terras e enchentes. Além disso, construções feitas sem padrões de segurança necessário e falta de drenagem da água em alguns locais também são fatores agravantes.

“Infelizmente a cidade sofre mais riscos de inundação pois foi construída ao redor de rios e possui uma alta densidade demográfica”, explica Edivânia Pereira dos Santos da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac).

Outra questão apresentada pela pesquisadora foi a dificuldade de ter ações mais efetivas para segurança. Por mais que os órgãos federais, estatuais e municipais emitam sinais de alerta, ainda existe uma dificuldade de compreensão da população “Muitas pessoas não se dão conta da seriedade e ignoram os avisos, é algo cultural. Acham que o aviso meteorológico é irrelevante, mas aos poucos estamos mudando essa mentalidade”, afirma.

O monitoramento da região é realizado pelas agências locais há algum tempo. Em janeiro deste ano, a Apac sinalizou a possibilidade de acontecer chuvas mais intensas do que os outros anos, em março emitiram um boletim.

Mesmo tendo sido feitas algumas ações de prevenção, segundo os pesquisadores há muito para melhorar, tanto para a população acatando os comunicados, como para órgãos governamentais realizando melhores ações de evacuação e prestando melhor atendimento.

O estudo segue em andamento, coletando os dados para ampliar a pesquisa. No entanto, cientistas afirmam que a análise demonstra a probabilidade de outros eventos intensos acontecerem novamente.

Fonte: Galileu