Relatório desmonta crença no uso de tecnologias para combater o aquecimento global

“As tecnologias de emissões negativas são muito interessantes, mas não são uma alternativa para redução rápida de emissões de CO2”. A frase foi dita pelo professor  John Shepherd, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, um dos autores do estudo divulgado nesta quinta-feira (1º) pelo Conselho Consultivo de Ciências das Academias Europeias (Easac, na sigla em inglês), mostrando que as tecnologias não são uma bala de prata contra os efeitos do aquecimento no planeta, como muitos esperam. O Easac assessora a União Europeia e é formado pelas academias científicas nacionais dos 28 estados membros.

Não vai funcionar, é simples assim. E, o que é pior: as tecnologias sugeridas pelos cientistas do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês)  podem causar ainda mais aquecimento.  O IPCC calcula que cerca de 12 bilhões de toneladas precisarão ser capturadas, anualmente, e armazenadas após 2050 – o equivalente a cerca de um terço de todas as emissões globais hoje.

Para se ter uma ideia, o relatório avalia uma variedade de tecnologias possíveis, incluindo a “bioenergia com captura e armazenamento de carbono” (BECCS), na qual os cientistas do IPCC apostam quase todas as fichas. Trata-se de uma técnica que consiste em plantar árvores que absorvem CO2 da atmosfera e depois queimá-las para produzir eletricidade, enquanto os gases são capturados e enterrados. Parece um processo complexo, e é. O diretor do programa do Easac, e outro autor do relatório, Michael Norton, disse ao jornal “The Guardian” que a técnica tem problemas:

“Tem que ter territórios muito extensos e poderia haver uma extinção em massa de animais selvagens”, avisa ele. Faz sentido, já que a ideia é criar florestas e mais florestas com um único tipo de árvore. E a monocultura, como  dizem os ambientalistas e estudiosos sobre o assunto, não é amiga da biodiversidade.

No relatório do Conselho, os cientistas atestam algo que há algum tempo preocupava apenas os ecossocioeconomistas. São estudiosos que enxergam nas tecnologias de captura de carbono um outro viés, como práticas muito caras, que não podem ser adotadas por países pobres. Tais práticas poderiam aumentar ainda mais o fosso já profundo entre os pobres e os ricos. O Acordo de Paris prevê que os países desenvolvidos invistam 100 bilhões de dólares por ano em medidas de combate à mudança do clima e em adaptação nos países pobres. Mas ainda é grande a distância entre o que é exigência oficial, não obrigatória, e  o que, de fato, será feito.

Busquei algum exemplo bem-sucedido de técnicas de emissões negativas no mundo e encontrei o caso de uma usina de energia em Hellisheiði, na Islândia. A planta produz apenas cerca de um terço do carbono que uma planta de carvão tradicional seria – mas mais do que o que ele emite é capturado e armazenado no subsolo.  Para isso, ela tem uma parede de ventiladores que filtra o CO2 e o injeta na água que é, então,  bombeada para o chão, onde se torna pedra.

É um processo até simples, esclarecem os pesquisadores. Mas tem um problema de difícil solução: é caro.  Já que é assim, por que não respeitar, portanto, práticas e técnicas que não envolvem custos astronômicos e que exercem a mesma função?

Pesquisei algo nesse sentido e encontrei um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Guiana, na França, em parceria com órgãos brasileiros e peruanos como o Instituto de Investigações da Amazônia Peruana e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).  A pesquisa avaliou, durante dez anos (entre 2002 e 2012), as mudanças em áreas de florestas não desmatadas e áreas que sofreram corte seletivo. Os pesquisadores analisaram mais de 113 áreas de floresta permanente e 13 áreas afetadas experimentalmente, em diferentes regiões da Amazônia. Após a análise dos dados, observou-se que, ao longo da primeira década após o corte, as árvores mais velhas que sobrevivem à motosserra absorvem mais CO2 do que as mais novas.

Segundo a pesquisa, de 1999 a 2002 a extensão da exploração madeireira seletiva na Amazônia brasileira foi equivalente ao desmatamento no mesmo período. A situação resultou em emissões de mais de 90 milhões de toneladas de carbono por ano, que aumentaram as emissões antropogênicas de carbono em 25% em relação ao desmatamento sozinho.

Chama-se a esta prática de manejo florestal, muito usada também pelos indígenas, povos tradicionais que poderiam dar sugestões bem possíveis para os cientistas que tentam achar soluções mirabolantes para o aquecimento global. A prática de manejo das capoeiras, retirando árvores mais velhas ou mesmo algumas novas,  mas crescidas, respeitando seu tempo de dispersar as sementes na terra, é barata. Dá mais trabalho, exige maior contato com o meio ambiente.

Os indígenas têm muito a compartilhar sobre esta e outras práticas. Basta incluí-los, assim como a todos os outros povos que precisam da floresta, nas mesas de negociações e debates. Isto não é feito porque há um descrédito arraigado. Wolfgang  Sachs, ambientalista alemão que organizou o livro “The Development Dictionary” (Ed. Z, ainda sem tradução no Brasil) , chama de ecocracia o discurso daqueles que acreditam no casamento entre meio ambiente e desenvolvimento sem se preocupar em reconsiderar a lógica do produtivismo “que está na raiz das dificuldades ecológicas que o planeta está atravessando”.

“Esta crença reduz a ecologia a um conjunto de estratégias gerenciais de eficiência de recursos e gerenciamento de riscos. Trata como se fosse um problema de tecnologia o que, de fato, não passa de um impasse civilizatório”, escreve ele.

Neste cenário, as sociedades que não escolheram investir toda a sua energia em produção acabam se tornando inaceitáveis para o Ocidente. A percepção ecocrática torna-se cega à diversidade fora da economia do Ocidente.

Fonte: Amelia Gonzalez , G1

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